Voltar Tontura proprioceptiva cervical: um desafio ao terapeuta

Nedison Gomes Paim Alves, Fisioterapeuta auxiliar do Setor de Otoneurologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.


As tonturas de origem proprioceptiva estão frequentemente relacionadas à cervicalgia. A dor é caracteristicamente referida como “dor localizada na parte posterior do pescoço e superior das escápulas ou zona dorsal alta sem sinais característicos de radiculopatia”. A cervicalgia assume importância quando observamos que cerca de 28% da população apresentará algum episódio de dor pelo menos uma vez durante a vida. Alguns fatores como comprometimentos mecânicos, hérnia de disco, estenose da artéria cervical, doenças degenerativas como artrose e lesão em chicote (whiplash), contribuem para gerar dor na região cervical.

Porém, qual é a importância da cervicalgia no desencadeamento das tonturas de origem cervical? A consequência imediata da dor é a contratura muscular local com a finalidade de proteção. A partir de então, a dor tende a se perpetuar, pois a contratura gera a dor, que desencadeia a contratura e assim é estabelecido um ciclo denominado: dor/espasmo/dor. Os músculos sob contratura geram algia, que acaba por desencadear informações que chegam assincronicas ao SNC. A informação aferente inadequada pode manifestar-se como tontura, que na maioria das vezes será do tipo desequilíbrio. Quando a tontura está relacionada à origem cervical, o paciente relaciona o desencadeamento da tontura com os períodos de surgimento e/ou intensificação da dor.

Após o diagnóstico de tontura de origem cervical proprioceptiva, o tratamento específico com fisioterapia vem se mostrando muito eficiente. A escolha da técnica a ser utilizada é de fundamental importância para que o sucesso na reabilitação seja atingido. Dentro de um vasto leque de opções terapêuticas dentro da fisioterapia, o que escolher? A resposta é: depende da avaliação adequada, que deve ser precisa.

Podemos optar pelo efeito analgésico da temperatura, quente ou fria (crioterapia). Nesse caso, alguns cuidados devem ser tomados para que não ocorram lesões cutâneas no paciente. Embora seja menos utilizada, a crioterapia é efetiva na cervicalgia, principalmente nos casos mais agudos. A demora do paciente para apresentar-se no consultório para a terapia é um dos motivos que levam o terapeuta a utilizar-se menos dessa técnica.

Na busca pela analgesia, a eletroterapia sempre é uma boa opção. Em casos onde está presente o ciclo vicioso dor/contratura/dor, a estimulação elétrica local (TENS) e o interferencial são boas escolhas, porém, sempre paliativos. O ciclo de será quebrado e, em muitos casos, o problema pode ser solucionado. Posicionar os eletrodos corretamente pode fazer a diferença no tratamento. Quanto maior a área abrangida, melhores serão os resultados.

O ultrassom terapêutico é indicado quando pretende-se os resultados obtidos pelo calor: relaxamento muscular e analgesia. O procedimento está indicado para contraturas, principalmente de trapézio, sempre com o cuidado de não passar o transdutor sobre a coluna. A dosagem precisa ser minuciosamente definida, para que se possa alcançar a profundidade e tecido desejados.

A terapia manual apresenta técnicas muito eficazes: alongamentos, pompagem, tração e manipulação cervical mínima (Técnica de Maitland). A associação ponderada e correta determina o sucesso ou fracasso do tratamento.

É comum que os pacientes com tontura proprioceptiva cervical apresentem diminuição de força muscular. E na ausência de bons estabilizadores estáticos (congruência articular, ligamentos, cápsulas articulares), os músculos (estabilizadores dinâmicos) serão primordiais. Logo, fazem-se necessários exercícios para fortalecimento da musculatura cervical. Exercícios específicos com faixas elásticas, além de técnicas como a reeducação postural global (RPG) e Pilates são boas escolhas. Cabe salientar que muitos pacientes são idosos e corrigir sua postura merece a máxima atenção. Nesses casos, a projeção do centro de gravidade pode estar alterada e o paciente assume postura inadequada, elevando risco de quedas.

Assim, para uma mesma afecção – cervicalgia/tontura – a opção de tratamento deve ser voltada à necessidade individual de cada paciente.

 

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